Apneia do sono: sintomas, diagnóstico e tratamento

Por Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista · CRM-MG 54546 · RQE 38138

Ilustração de homem dormindo de barriga para cima, com corte anatômico mostrando o ar passando pelo nariz e a garganta estreitada

A apneia do sono é uma condição em que a respiração para ou fica bem reduzida por curtos períodos, várias vezes ao longo da noite. Os sinais mais comuns são ronco alto, pausas na respiração percebidas por quem dorme por perto e cansaço durante o dia. Veja a seguir por que isso acontece, como é feito o diagnóstico e quais tratamentos existem hoje.

O que é a apneia do sono?

Pense em um canudo de papel. Enquanto as paredes estão firmes, o líquido passa sem dificuldade. Se elas amolecem, o canudo se fecha justamente quando você suga com mais força. Algo parecido acontece na garganta durante o sono: a musculatura relaxa e, em algumas pessoas, esse relaxamento é suficiente para estreitar ou fechar a passagem do ar.

Quando a passagem estreita, o ar passa com turbulência e produz o ronco. Quando fecha, a respiração para por alguns segundos — é a apneia obstrutiva do sono (paradas na respiração causadas pelo fechamento da garganta). O corpo reage com um despertar muito breve, o ar volta a passar e o ciclo recomeça, às vezes dezenas de vezes por hora — sem que a pessoa se lembre de nada pela manhã.

Existe também a apneia do sono central, em que a pausa acontece porque o cérebro deixa de enviar o comando aos músculos da respiração. É bem menos frequente, e não é o tema deste artigo.

Quais são os sinais de apneia do sono?

Os três sinais mais característicos são ronco alto, pausas na respiração observadas por outra pessoa e sonolência ou cansaço durante o dia. Outros que costumam aparecer:

  • Acordar com sensação de engasgo ou de falta de ar
  • Sono agitado, com muitas mudanças de posição
  • Dor de cabeça, boca seca ou garganta irritada ao acordar
  • Acordar mais de uma vez à noite para urinar
  • Levantar sentindo que a noite não descansou
  • Dificuldade de concentração ou de memória durante o dia

Roncar não é o mesmo que ter apneia: muita gente ronca sem ter a condição, e há quem tenha apneia e perceba poucos sintomas. A lista acima levanta a suspeita, mas não confirma nem descarta nada — isso é papel da avaliação médica.

Quem tem mais chance de ter apneia do sono?

Um estudo populacional feito em São Paulo, com exame de sono em mais de mil adultos, encontrou apneia em cerca de 1 em cada 3 participantes (32,8%) — incluindo formas leves e pessoas que não sabiam ter o problema. Alguns fatores aumentam a chance:

  • Excesso de peso, especialmente gordura no pescoço e no abdome
  • Idade mais avançada
  • Ser homem — em mulheres, a frequência aumenta após a menopausa
  • Anatomia do rosto e da garganta, como queixo recuado ou amígdalas aumentadas
  • Obstrução nasal persistente
  • Bebida alcoólica à noite e medicamentos que relaxam a musculatura

Como o médico investiga a apneia do sono?

A conversa na consulta e o exame físico levantam a suspeita, mas não fecham o diagnóstico. Para isso é preciso registrar o que acontece com a respiração durante o sono, e o exame usado para isso é a polissonografia.

No exame, sensores registram durante a noite o fluxo de ar, o esforço do tórax e do abdome, a oxigenação do sangue e os batimentos do coração. Desse registro sai a média de paradas e reduções da respiração por hora de sono — o principal dado para dizer se há apneia e qual é a gravidade.

Ele pode ser feito em laboratório do sono ou, em boa parte dos casos, em casa, com um aparelho portátil usado por uma noite. A escolha depende da suspeita clínica e das outras condições de saúde, e quem define é o médico.

Como a apneia do sono é tratada?

Não existe um tratamento único que sirva para todos. A conduta é escolhida caso a caso, conforme a gravidade, os sintomas, a anatomia da via aérea e as outras condições de saúde.

Aparelho de pressão positiva (CPAP)

O CPAP sopra ar por uma máscara, com pressão suficiente para manter a garganta aberta durante o sono. É o tratamento com maior volume de estudos e o mais usado nos casos moderados e graves. Nos estudos disponíveis, o uso regular reduz as pausas respiratórias, o ronco e a sonolência diurna, e melhora a qualidade de vida relatada pelos pacientes.

O resultado depende do tempo de uso por noite, e a adaptação costuma levar algumas semanas. Desconforto com a máscara, ressecamento nasal e vazamento de ar são queixas comuns no início, em geral contornáveis com ajustes no acompanhamento.

Aparelho intraoral de avanço mandibular

É um dispositivo usado na boca durante o sono, que projeta a mandíbula para a frente e amplia o espaço na garganta. Costuma ser considerado nos casos leves e moderados e para quem não se adaptou ao CPAP. É feito e ajustado por dentista com formação em odontologia do sono, a partir da indicação médica.

Peso corporal e medidas de estilo de vida

Em quem está acima do peso, emagrecer diminui a gravidade da apneia, embora raramente resolva sozinho os casos graves — por isso costuma ser combinado com outro tratamento enquanto a perda acontece. Evitar álcool à noite e tratar a obstrução nasal também ajudam.

Desde outubro de 2025, a Anvisa autorizou no Brasil o uso da tirzepatida — medicamento injetável para controle de peso — também na apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade. Nos dois ensaios que embasaram a indicação, houve redução expressiva das paradas respiratórias por hora em um ano, na comparação com placebo. Indicação, contraindicações e dose dependem de avaliação médica.

Cirurgia

Procedimentos sobre o nariz, as amígdalas ou a estrutura da face podem ser indicados em situações selecionadas, em geral quando há alteração anatômica bem definida ou quando os outros tratamentos não foram suficientes. O resultado varia conforme o caso.

A apneia do sono aumenta o risco de problemas do coração?

Vale separar duas perguntas. A primeira: pessoas com apneia do sono têm mais problemas cardiovasculares? Os estudos populacionais mostram de forma consistente que sim — a apneia aparece associada a maior frequência de pressão alta, arritmias e doença coronariana, além de maior risco de acidentes de trânsito e de trabalho pela sonolência.

A segunda: tratar com CPAP reduz esses eventos? Aqui a resposta ainda é incerta. O maior estudo já feito, com mais de 2.700 participantes que já tinham doença cardiovascular, não encontrou redução de infartos, derrames ou mortes cardiovasculares com o CPAP frente ao cuidado habitual — embora tenha encontrado melhora do ronco, da sonolência, do humor e da qualidade de vida. Nele, o aparelho foi usado em média cerca de três horas por noite. Análises que reúnem estudos de acompanhamento em vida real sugerem benefício em quem usa o aparelho por mais tempo, mas esse tipo de estudo não permite a mesma segurança de conclusão.

Ou seja: há boa evidência de melhora de sintomas e de qualidade de vida, e discussão em aberto sobre o efeito em desfechos cardiovasculares — distinção que faz parte da conversa antes de iniciar o tratamento.

Quando procurar avaliação médica

Vale marcar uma consulta para avaliar o sono quando houver:

  • Ronco alto associado a pausas na respiração percebidas por outra pessoa
  • Sonolência durante o dia que atrapalha o trabalho, o estudo ou a direção
  • Sensação persistente de que o sono não descansa
  • Pressão alta de difícil controle, com uso de vários medicamentos
  • Despertares com engasgo ou sufocamento

A avaliação com pneumologista permite estimar a probabilidade da condição, decidir se o exame do sono é necessário e discutir as condutas.

Perguntas frequentes

Quem ronca tem apneia do sono?

Não necessariamente. O ronco é muito comum e pode existir sem apneia. O que aumenta a suspeita é o ronco acompanhado de pausas respiratórias, sono não reparador e cansaço durante o dia. Só o exame do sono permite diferenciar as duas situações.

Preciso dormir na clínica para fazer o exame?

Nem sempre. Em boa parte dos casos o exame pode ser feito em casa, com um aparelho portátil usado por uma noite. Em algumas situações clínicas, o exame em laboratório do sono continua sendo o mais indicado, e essa escolha é do médico.

Vou precisar usar CPAP para o resto da vida?

Depende da causa e da evolução. O CPAP controla a apneia enquanto está sendo usado, e não é um tratamento definitivo por si só. Quando o excesso de peso pesa muito no quadro, emagrecer pode reduzir a gravidade, e a necessidade do aparelho é reavaliada no acompanhamento.

Apneia do sono tem cura?

Na maior parte dos casos é uma condição crônica, controlada mais do que resolvida. Em situações específicas — uma alteração anatômica corrigida por cirurgia, ou uma perda de peso expressiva — o quadro pode deixar de ser detectado em um novo exame. A resposta varia de pessoa para pessoa.

Referências

  1. Duarte RLM, Togeiro SMGP, Palombini LO, et al. Consenso em Distúrbios Respiratórios do Sono da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Jornal Brasileiro de Pneumologia, 2022;48(4):e20220106. doi.org/10.36416/1806-3756/e20220106
  2. Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Medicine, 2010;11(5):441-446. doi.org/10.1016/j.sleep.2009.10.005
  3. McEvoy RD, Antic NA, Heeley E, et al. CPAP for Prevention of Cardiovascular Events in Obstructive Sleep Apnea (estudo SAVE). New England Journal of Medicine, 2016;375:919-931. doi.org/10.1056/NEJMoa1606599
  4. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity (estudo SURMOUNT-OSA). New England Journal of Medicine, 2024;391(13):1193-1205. doi.org/10.1056/NEJMoa2404881
  5. Benjafield AV, Pepin JL, Cistulli PA, et al. Positive airway pressure therapy and all-cause and cardiovascular mortality in people with obstructive sleep apnoea: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Respiratory Medicine, 2025;13(5):403-413. doi.org/10.1016/S2213-2600(25)00002-5
  6. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Espaço Saúde Respiratória — Apneia do Sono. SBPT. sbpt.org.br

Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação individual.

Dr. Matheus Goebel — MÉDICO — CRM-MG 54546 — RQE 38138 (Pneumologia) — RQE 38137 (Clínica Médica)

Autoria e revisão: Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista. Ferramentas de inteligência artificial foram usadas como apoio na busca da literatura médica; a revisão final e a responsabilidade pelo conteúdo são do autor.

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Este texto é informativo e não substitui uma consulta. Se o que você leu se parece com o que sente, uma avaliação com pneumologista pode esclarecer o diagnóstico e orientar o tratamento.

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