A bombinha só funciona bem se o remédio chegar ao pulmão — e isso depende da forma como o dispositivo é usado. Uma revisão que reuniu 144 estudos e mais de 54 mil pessoas encontrou que até dois terços das pessoas usam a medicação de forma errada. Este artigo mostra o passo a passo de como usar o inalador dosimetrado, a famosa “bombinha”, e os erros que mais tiram efeito do tratamento.
Como funciona o inalador dosimetrado?
O inalador dosimetrado, também chamado de spray ou bombinha, guarda o medicamento sob pressão dentro de um frasco metálico. Cada vez que você aperta o frasco, ele libera uma mesma dose, em forma de aerossol.
O ponto delicado é que esse jato de aerossol sai rápido. Se você apertar antes ou depois de começar a puxar o ar, boa parte do remédio bate na garganta e é engolida em vez de chegar aos brônquios. É como encher um copo numa torneira que abre por meio segundo: se o copo não estiver embaixo na hora exata, a água cai fora.
Por isso, as três falhas mais comuns com esse dispositivo, segundo a revisão citada acima, são justamente essas: não sincronizar o disparo com a inspiração, puxar o ar rápido demais ou raso demais, e não prender a respiração depois.
Preciso preparar o inalador antes da primeira vez?
Sim. Um inalador novo precisa de alguns disparos no ar antes do primeiro uso, para que a dose saia na medida certa. O mesmo vale quando o dispositivo fica bastante tempo parado.
O número de disparos e o tempo de inatividade que exige repetir o preparo variam de produto para produto. Não há regra única: quem define é a bula do dispositivo que você recebeu, e o farmacêutico pode confirmar na hora da retirada. De forma geral, 3 jatos antes do primeiro uso ou ao ficar parado por mais de 1 semana costumam ser suficientes, mas é importante conferir na bula.
Como usar a bombinha passo a passo
Cada dispositivo pode ter particularidades, então a bula continua valendo. De modo geral, a sequência é esta:
- Retire a tampa do bocal
- Agite o inalador por cerca de 5 segundos
- Segure o frasco na vertical, com o dedo indicador em cima e o polegar embaixo
- Solte o ar dos pulmões, sem soprar dentro do aparelho
- Feche os lábios em volta do bocal e comece a puxar o ar; ao iniciar a inspiração, aperte o frasco uma vez
- Continue puxando o ar de forma lenta e profunda, até encher o peito
- Prenda a respiração por até 10 segundos, ou o quanto for confortável, e depois solte o ar devagar
Se a prescrição indicar mais de uma dose, espere cerca de meio minuto, agite o inalador novamente e repita a sequência. Ao final, recoloque a tampa.
Um cuidado a mais para quem usa medicamento com corticoide inalatório, como budesonida, fluticasona ou beclometasona: enxágue a boca com água, faça gargarejo e cuspa. Isso reduz a chance de rouquidão e de candidíase (sapinho) na boca.
Você também pode ver as instruções em vídeo no site do InCor.
Por que o espaçador faz diferença?
O espaçador é um tubo que se encaixa no bocal do inalador. O aerossol é liberado dentro dele e fica suspenso por alguns instantes, o que dá tempo de você puxar o ar sem precisar acertar o momento exato do disparo.
Durante muito tempo o espaçador foi apresentado como um recurso para quem tem dificuldade de coordenação. As recomendações atuais vão além disso: quem usa corticoide inalatório em inalador dosimetrado deve usar espaçador. Além de facilitar a coordenação, ele reduz a quantidade de medicamento que fica depositada na boca e na garganta. Ou seja, é bem melhor e mais fácil o uso das bombinhas com o espaçador.
A sequência muda pouco: encaixe o inalador, agite o conjunto, solte o ar, feche os lábios no bocal do espaçador, dispare uma dose e puxe o ar devagar e fundo, prendendo a respiração ao final. Um disparo de cada vez — acumular jatos dentro do espaçador desperdiça medicamento.
Se usa o espaçador diariamente, lave-o a cada uma ou duas semanas com água morna e detergente neutro, e deixe secar ao ar. Não seque com pano: o atrito gera eletricidade estática, e o medicamento gruda nas paredes em vez de chegar ao pulmão.
E se o meu dispositivo for de pó seco?
Aqui está uma confusão que custa caro. Os inaladores de pó seco funcionam de forma diferente do spray: neles, é a própria força da sua inspiração que solta e carrega o pó. Enquanto no inalador dosimetrado você puxa o ar devagar, no dispositivo de pó seco a inspiração precisa ser rápida e forte, desde o início.
Outro detalhe: no dispositivo de pó seco, nunca sopre dentro do bocal. A umidade da respiração empelota o pó e compromete a dose.
Se você usa os dois tipos, peça ao médico que revise cada um separadamente.
Como sei se o inalador acabou?
Vários dispositivos trazem contador de doses. Quando ele chega a zero, o inalador deve ser descartado mesmo que ainda saia alguma coisa ao apertar — o que continua saindo é gás propelente, com pouco ou nenhum medicamento.
Se o seu não tem contador, o jeito é calcular: divida o número de doses informado na embalagem pela quantidade que você usa por dia. Mergulhar o frasco na água para ver se ele boia não funciona: um estudo que testou esse método mostrou que o comportamento do frasco na água varia conforme o produto e não indica de forma confiável quanto resta.
Quando levar o assunto à consulta
- Sensação de que o medicamento “não está mais fazendo efeito”
- Dificuldade de apertar o frasco e puxar o ar ao mesmo tempo
- Tosse ou engasgo logo após o disparo
- Rouquidão persistente ou placas brancas na boca
- Troca recente de dispositivo, mesmo com o mesmo medicamento
Vale pedir, em toda consulta, que o médico observe você usando o dispositivo — e não apenas explicando como usa. As diretrizes brasileiras e internacionais recomendam essa checagem de rotina, e os estudos mostram que a orientação repetida reduz bastante os erros.
Publicado originalmente em 14 de abril de 2018. Revisado e atualizado em 14 de setembro de 2026.
Referências
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Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação individual.




