Como usar a bombinha (inalador) corretamente

Por Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista · CRM-MG 54546 · RQE 38138

Inalador dosimetrado encaixado em um espaçador, pronto para uso.

A bombinha só funciona bem se o remédio chegar ao pulmão — e isso depende da forma como o dispositivo é usado. Uma revisão que reuniu 144 estudos e mais de 54 mil pessoas encontrou que até dois terços das pessoas usam a medicação de forma errada. Este artigo mostra o passo a passo de como usar o inalador dosimetrado, a famosa “bombinha”, e os erros que mais tiram efeito do tratamento.

Como funciona o inalador dosimetrado?

O inalador dosimetrado, também chamado de spray ou bombinha, guarda o medicamento sob pressão dentro de um frasco metálico. Cada vez que você aperta o frasco, ele libera uma mesma dose, em forma de aerossol.

O ponto delicado é que esse jato de aerossol sai rápido. Se você apertar antes ou depois de começar a puxar o ar, boa parte do remédio bate na garganta e é engolida em vez de chegar aos brônquios. É como encher um copo numa torneira que abre por meio segundo: se o copo não estiver embaixo na hora exata, a água cai fora.

Por isso, as três falhas mais comuns com esse dispositivo, segundo a revisão citada acima, são justamente essas: não sincronizar o disparo com a inspiração, puxar o ar rápido demais ou raso demais, e não prender a respiração depois.

Preciso preparar o inalador antes da primeira vez?

Sim. Um inalador novo precisa de alguns disparos no ar antes do primeiro uso, para que a dose saia na medida certa. O mesmo vale quando o dispositivo fica bastante tempo parado.

O número de disparos e o tempo de inatividade que exige repetir o preparo variam de produto para produto. Não há regra única: quem define é a bula do dispositivo que você recebeu, e o farmacêutico pode confirmar na hora da retirada. De forma geral, 3 jatos antes do primeiro uso ou ao ficar parado por mais de 1 semana costumam ser suficientes, mas é importante conferir na bula.

Como usar a bombinha passo a passo

Cada dispositivo pode ter particularidades, então a bula continua valendo. De modo geral, a sequência é esta:

  1. Retire a tampa do bocal
  2. Agite o inalador por cerca de 5 segundos
  3. Segure o frasco na vertical, com o dedo indicador em cima e o polegar embaixo
  4. Solte o ar dos pulmões, sem soprar dentro do aparelho
  5. Feche os lábios em volta do bocal e comece a puxar o ar; ao iniciar a inspiração, aperte o frasco uma vez
  6. Continue puxando o ar de forma lenta e profunda, até encher o peito
  7. Prenda a respiração por até 10 segundos, ou o quanto for confortável, e depois solte o ar devagar

Se a prescrição indicar mais de uma dose, espere cerca de meio minuto, agite o inalador novamente e repita a sequência. Ao final, recoloque a tampa.

Um cuidado a mais para quem usa medicamento com corticoide inalatório, como budesonida, fluticasona ou beclometasona: enxágue a boca com água, faça gargarejo e cuspa. Isso reduz a chance de rouquidão e de candidíase (sapinho) na boca.

Você também pode ver as instruções em vídeo no site do InCor.

Por que o espaçador faz diferença?

O espaçador é um tubo que se encaixa no bocal do inalador. O aerossol é liberado dentro dele e fica suspenso por alguns instantes, o que dá tempo de você puxar o ar sem precisar acertar o momento exato do disparo.

Durante muito tempo o espaçador foi apresentado como um recurso para quem tem dificuldade de coordenação. As recomendações atuais vão além disso: quem usa corticoide inalatório em inalador dosimetrado deve usar espaçador. Além de facilitar a coordenação, ele reduz a quantidade de medicamento que fica depositada na boca e na garganta. Ou seja, é bem melhor e mais fácil o uso das bombinhas com o espaçador.

A sequência muda pouco: encaixe o inalador, agite o conjunto, solte o ar, feche os lábios no bocal do espaçador, dispare uma dose e puxe o ar devagar e fundo, prendendo a respiração ao final. Um disparo de cada vez — acumular jatos dentro do espaçador desperdiça medicamento.

Se usa o espaçador diariamente, lave-o a cada uma ou duas semanas com água morna e detergente neutro, e deixe secar ao ar. Não seque com pano: o atrito gera eletricidade estática, e o medicamento gruda nas paredes em vez de chegar ao pulmão.

E se o meu dispositivo for de pó seco?

Aqui está uma confusão que custa caro. Os inaladores de pó seco funcionam de forma diferente do spray: neles, é a própria força da sua inspiração que solta e carrega o pó. Enquanto no inalador dosimetrado você puxa o ar devagar, no dispositivo de pó seco a inspiração precisa ser rápida e forte, desde o início.

Outro detalhe: no dispositivo de pó seco, nunca sopre dentro do bocal. A umidade da respiração empelota o pó e compromete a dose.

Se você usa os dois tipos, peça ao médico que revise cada um separadamente.

Como sei se o inalador acabou?

Vários dispositivos trazem contador de doses. Quando ele chega a zero, o inalador deve ser descartado mesmo que ainda saia alguma coisa ao apertar — o que continua saindo é gás propelente, com pouco ou nenhum medicamento.

Se o seu não tem contador, o jeito é calcular: divida o número de doses informado na embalagem pela quantidade que você usa por dia. Mergulhar o frasco na água para ver se ele boia não funciona: um estudo que testou esse método mostrou que o comportamento do frasco na água varia conforme o produto e não indica de forma confiável quanto resta.

Quando levar o assunto à consulta

  • Sensação de que o medicamento “não está mais fazendo efeito”
  • Dificuldade de apertar o frasco e puxar o ar ao mesmo tempo
  • Tosse ou engasgo logo após o disparo
  • Rouquidão persistente ou placas brancas na boca
  • Troca recente de dispositivo, mesmo com o mesmo medicamento

Vale pedir, em toda consulta, que o médico observe você usando o dispositivo — e não apenas explicando como usa. As diretrizes brasileiras e internacionais recomendam essa checagem de rotina, e os estudos mostram que a orientação repetida reduz bastante os erros.

Publicado originalmente em 14 de abril de 2018. Revisado e atualizado em 14 de setembro de 2026.

Referências

  1. Global Initiative for Asthma. Summary Guide for Asthma Management and Prevention. GINA, 2026. ginasthma.org
  2. Sanchis J, Gich I, Pedersen S. Systematic Review of Errors in Inhaler Use: Has Patient Technique Improved Over Time? Chest, 2016;150(2):394-406. doi.org/10.1016/j.chest.2016.03.041
  3. Marko M, Pawliczak R. Inhalation technique-related errors after education among asthma and COPD patients using different types of inhalers — systematic review and meta-analysis. npj Primary Care Respiratory Medicine, 2025;35(1):15. doi.org/10.1038/s41533-025-00422-0
  4. Pizzichini MMM, Carvalho-Pinto RM, Cançado JED, et al. Recomendações para o manejo da asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — 2020. Jornal Brasileiro de Pneumologia, 2020;46(1):e20190307. doi.org/10.1590/1806-3713/e20190307
  5. Brock TP, Wessell AM, Williams DM, Donohue JF. Accuracy of float testing for metered-dose inhaler canisters. Journal of the American Pharmaceutical Association, 2002;42(4):582-586. doi.org/10.1331/108658002763029553

Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação individual.

Dr. Matheus Goebel — MÉDICO — CRM-MG 54546 — RQE 38138 (Pneumologia) — RQE 38137 (Clínica Médica)

Autoria e revisão: Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista. Ferramentas de inteligência artificial foram usadas como apoio na busca da literatura médica; a revisão final e a responsabilidade pelo conteúdo são do autor.

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