DPOC: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

Por Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista · CRM-MG 54546 · RQE 38138

Homem idoso de olhos fechados fazendo exercício de respiração, orientado por uma profissional de saúde

DPOC é a sigla de doença pulmonar obstrutiva crônica: uma condição em que as vias aéreas ficam inflamadas e estreitadas e parte dos alvéolos — o local onde o ar entra em contato com o sangue — se danifica. Isso causa falta de ar, tosse e cansaço, que costumam aparecer aos poucos. A doença não tem cura, mas tem tratamento, e novas formas de tratar surgiram nos últimos anos.

O que é a DPOC?

O pulmão saudável funciona um pouco como um elástico novo: ele estica quando você puxa o ar e volta sozinho ao tamanho original quando você solta. Na DPOC, esse elástico vai perdendo a elasticidade. O ar entra, mas sai com dificuldade e parte dele fica preso lá dentro — daí a sensação de peito cheio e de falta de ar que piora no esforço.

Duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Os brônquios, que são os tubos que levam o ar até os pulmões, ficam inflamados, estreitos e produzem mais muco. Isso é a bronquite. E os alvéolos, as bolsinhas de ar onde o oxigênio passa para o sangue, vão se rompendo e se fundindo em espaços maiores e menos eficientes. Isso é o enfisema pulmonar

Você talvez já tenha ouvido antes esses termos “bronquite crônica” e “enfisema”. São formas de apresentação da DPOC, e é comum que as duas coexistam na mesma pessoa.

Como a pessoa desenvolve DPOC?

A causa mais comum é o tabagismo. A fumaça do cigarro inflama e destrói o tecido do pulmão ao longo de anos, de forma silenciosa.

Mas nem todo mundo que tem DPOC fumou. Outras exposições também podem causar: a exposição prolongada à fumaça de fogão a lenha é uma causa reconhecida, e atinge especialmente mulheres que cozinharam nessas condições por décadas. Outras causas incluem poeiras e fumaças no trabalho, poluição do ar e, em situações raras, uma alteração genética chamada deficiência de alfa-1 antitripsina, identificável por exame de sangue.

Quais são os sintomas da DPOC?

No início, a DPOC costuma não dar sintoma nenhum — e é por isso que muita gente só descobre a doença quando ela já avançou. Com o tempo, aparecem:

  • Falta de ar, primeiro em esforços maiores e depois em atividades cada vez mais leves
  • Tosse que persiste, muitas vezes com catarro
  • Chiado no peito
  • Cansaço e redução da disposição para as atividades do dia a dia
  • Infecções respiratórias (como pneumonias) mais frequentes

Um erro comum: falta de ar que vai chegando devagar costuma ser atribuída à idade, ao peso ou ao sedentarismo. Mas nem sempre é por conta disso. Quando existe história de tabagismo ou de exposição à fumaça de lenha, vale investigar se existe a DPOC.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico depende de um exame: a espirometria. Não se fecha o diagnóstico de DPOC só pelos sintomas ou pela história de cigarro, a não ser que a pessoa não possa ou não consiga fazer a espirometria.

Nesse exame, você enche o peito de ar e sopra o mais forte e rápido que conseguir dentro de um tubo, que mede o volume e a velocidade do sopro. Em seguida, recebe um medicamento broncodilatador inalatório e repete o teste alguns minutos depois. O que define a DPOC é a obstrução que persiste mesmo depois do broncodilatador.

É por essa persistência que o exame ajuda a diferenciar DPOC de asma, em que a obstrução costuma normalizar ou melhorar muito após o medicamento. A distinção nem sempre é simples: algumas pessoas apresentam características das duas condições, e nesses casos o médico acompanha a evolução ao longo do tempo.

Outros exames podem ser solicitados, não para fechar o diagnóstico, mas para avaliar o conjunto: radiografia ou tomografia de tórax, exames de sangue, eletrocardiograma e ecocardiograma, além da medida do oxigênio no sangue. A tomografia de baixa dose de radiação para rastreamento de câncer de pulmão também pode ser indicada, conforme a idade e a carga tabágica de cada pessoa.

O que é uma exacerbação, e por que ela importa tanto?

Exacerbação — ou “crise” — é a piora dos sintomas além da variação habitual, geralmente com mais falta de ar, mais tosse e mudança na cor e/ou na quantidade do catarro, exigindo ajuste no tratamento.

Esse conceito ganhou centralidade nas recomendações atuais por um motivo prático: cada exacerbação pode deixar a função do pulmão um pouco pior do que estava antes, e quem já teve uma tem mais chance de ter outra. Boa parte do tratamento da DPOC é organizada em torno de reduzir a frequência dessas crises, e não apenas de aliviar os sintomas diários.

Como é feito o tratamento da DPOC?

Uma mudança importante das recomendações recentes é que as medidas não medicamentosas deixaram de ser “complemento”: elas passaram a ser tratadas como parte central do que modifica o curso da doença.

Parar de fumar

Em quem fuma, interromper o tabagismo é a medida com maior impacto sobre a evolução da DPOC, e vale em qualquer fase da doença. Parar é difícil, e a boa notícia é que existe tratamento: o SUS oferece acompanhamento gratuito para dependência de nicotina, com abordagem em grupo ou individual e medicamentos quando indicado, e a porta de entrada costuma ser a unidade básica de saúde. É só ir no posto de saúde e dizer que quer participar do próximo grupo de cessação do tabagismo. Aqui em Pará de Minas (e em grande parte dos municípios do Brasil) a maioria dos postos conta com esse serviço.

Vacinas

Infecções respiratórias são um gatilho frequente de exacerbação. Por isso, a vacinação faz parte do tratamento. As recomendações atuais para quem tem DPOC incluem vacina contra gripe todos os anos, vacina pneumocócica, vacina contra covid-19 e, conforme a idade e a disponibilidade, vacinas contra o vírus sincicial respiratório, coqueluche e herpes-zóster. Quais se aplicam ao seu caso depende da idade e do calendário vigente, e isso se define na consulta.

Reabilitação pulmonar e atividade física

A reabilitação pulmonar combina exercício orientado, treino respiratório e educação sobre a doença. É uma das intervenções com melhor resultado sobre falta de ar, capacidade de esforço e qualidade de vida. Onde não há um programa formal disponível, manter-se ativo dentro do que o corpo tolera, fazendo caminhada, hidroginástica, pilates ou academia por exemplo, já traz benefício.

Medicamentos inalatórios

A base do tratamento medicamentoso são os broncodilatadores de longa duração, que mantêm as vias aéreas mais abertas ao longo do dia. As recomendações atuais indicam começar, na maioria dos casos, com a combinação de duas classes de broncodilatador em vez de uma só.

O corticoide inalatório entra em situações específicas — sobretudo em quem continua tendo exacerbações apesar do tratamento e apresenta um marcador de inflamação identificável no exame de sangue (a contagem de eosinófilos). Não é um medicamento indicado para todo mundo com DPOC, e essa é uma diferença importante em relação à asma.

Para um grupo selecionado — pessoas que seguem tendo crises frequentes mesmo com terapia inalatória otimizada e que têm esse perfil inflamatório —, existem hoje medicamentos biológicos injetáveis com registro na Anvisa para DPOC. São opções de uso restrito, definidas caso a caso.

Oxigênio e procedimentos

Quando o nível de oxigênio no sangue fica persistentemente baixo, pode ser indicado o uso de oxigênio suplementar em casa, após exames que confirmem essa necessidade. Em casos selecionados de enfisema muito avançado, existem procedimentos para reduzir o volume das áreas mais danificadas do pulmão, realizados por cirurgia ou por broncoscopia, com critérios bem definidos de indicação.

Quando procurar avaliação médica

  • Falta de ar que vem piorando ao longo de meses, em esforços cada vez menores
  • Tosse com catarro que persiste por semanas
  • História de tabagismo ou de anos cozinhando em fogão a lenha, mesmo sem sintomas claros
  • Diagnóstico de DPOC sem espirometria recente ou sem acompanhamento
  • Duas ou mais pioras no último ano que exigiram antibiótico ou corticoide

Piora rápida da falta de ar, com dificuldade para falar frases inteiras ou sonolência incomum, são sintomas importantes, que precisam de atendimento no mesmo dia, geralmente em pronto socorro.

Publicado originalmente em 4 de abril de 2018. Revisado e atualizado em 14 de setembro de 2026.

Referências

  1. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of COPD — 2026 Report. GOLD, 2026. goldcopd.org
  2. Cazzola M, Bajpai J, Calzetta L, Matera MG, Rogliani P. GOLD 2026: Transforming COPD Management with Early Intervention, Multi-dimensional Assessment, and Personalized Care. Drugs, 2026;86(5):581-597. doi.org/10.1007/s40265-026-02303-3
  3. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Dupixent (dupilumabe): nova indicação para doença pulmonar obstrutiva crônica. Anvisa, 2024. gov.br
  4. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Mês de atenção à DPOC. SBPT, 2021. sbpt.org.br

Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação individual.

Dr. Matheus Goebel — MÉDICO — CRM-MG 54546 — RQE 38138 (Pneumologia) — RQE 38137 (Clínica Médica)

Autoria e revisão: Dr. Matheus Goebel, médico pneumologista. Ferramentas de inteligência artificial foram usadas como apoio na busca da literatura médica; a revisão final e a responsabilidade pelo conteúdo são do autor.

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Este texto é informativo e não substitui uma consulta. Se o que você leu se parece com o que sente, uma avaliação com pneumologista pode esclarecer o diagnóstico e orientar o tratamento.

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