A asma é uma doença crônica em que a parede dos brônquios — os tubos que levam o ar aos pulmões — fica inflamada e reage de forma exagerada a certos estímulos. Isso causa chiado, tosse, aperto no peito e falta de ar, em crises que vêm e vão. Ela não tem cura, mas tem tratamento, e a forma de tratar mudou bastante na última década.
O que é a asma?
Pense nos brônquios como tubos flexíveis que se ramificam dentro do pulmão. Em quem tem asma, a parede interna desses tubos vive inflamada — parecida com uma garganta irritada que nunca termina de sarar. Essa parede fica inchada, produz mais muco e a musculatura ao redor se contrai com maior facilidade diante de um estímulo. O cano estreita, o ar passa com dificuldade e surge o chiado.
Duas coisas importam nessa descrição. A primeira é que a inflamação está presente mesmo nos dias em que você se sente bem — ela não aparece só na crise. A segunda é que o estreitamento, na maior parte dos casos, é reversível: melhora com medicamento ou até sozinho. É isso que diferencia a asma de outras doenças dos brônquios.
A asma costuma começar na infância, mas pode aparecer em qualquer idade. É comum haver outros casos na família, e é frequente vir acompanhada de rinite alérgica.
Quais são os sintomas de asma?
Os quatro sintomas principais são chiado no peito, tosse, aperto no peito e falta de ar. Alguns detalhes ajudam a levantar a suspeita:
- Os sintomas vêm e vão, em vez de estarem presentes o tempo todo
- Pioram à noite ou nas primeiras horas da manhã
- Aparecem depois de exercício, de risada, de ar frio ou de contato com poeira e cheiros fortes
- Pioram junto com gripes e resfriados
- Melhoram sozinhos ou com medicamento inalatório
Vale lembrar que tosse crônica isolada, sem chiado, também pode ser asma — e que nem todo chiado é asma. Esses sinais orientam a suspeita, mas quem confirma é o médico.
Como o médico confirma se é asma?
O diagnóstico junta duas coisas: a história dos sintomas, colhida na consulta, e a demonstração de que existe obstrução ao fluxo de ar que melhora. O exame usado para isso é a espirometria, o teste em que você sopra com força dentro de um aparelho.
A espirometria mede quanto ar você consegue soprar e a velocidade que o ar entra e sai dos pulmões. Na maioria das vezes, o exame é repetido alguns minutos depois de um medicamento que dilata os brônquios, para ver se houve melhora. Essa melhora é um dos achados que apoiam o diagnóstico.
Um ponto que gera confusão: uma espirometria normal não descarta asma. Como os sintomas vêm e vão, é possível fazer o exame em um dia bom e não encontrar alteração nenhuma. Nessas situações, o médico pode repetir o exame, acompanhar as medidas ao longo do tempo ou solicitar outros testes.
Como a asma é tratada hoje?
Durante muito tempo, o modelo foi: usar a bombinha de alívio (o broncodilatador puro, como o salbutamol) quando os sintomas apareciam e, só em casos mais frequentes, acrescentar um medicamento de controle. Esse modelo foi abandonado. As recomendações atuais do GINA, referência internacional em asma, afirmam que adultos, adolescentes e crianças a partir de 6 anos não devem ser tratados apenas com o medicamento de alívio, sem anti-inflamatório. O uso isolado da bombinha de resgate está associado a mais crises e a pior controle da doença ao longo do tempo.
O motivo é o que foi dito lá atrás: a bombinha de alívio relaxa a musculatura e abre o brônquio em poucos minutos, mas não trata a inflamação que está por baixo. É como tomar analgésico para uma dor de dente sem tratar o dente.
Corticoide inalatório: o medicamento que trata a inflamação
O corticoide inalatório é a base do tratamento. Ele age direto nos brônquios, em doses muito menores do que as usadas em comprimido, já que atua direto onde está o problema, e reduz a inflamação que mantém a doença ativa. Hoje, mesmo quem tem sintomas pouco frequentes recebe alguma forma de corticoide inalatório.
Uma das estratégias recomendadas combina, no mesmo dispositivo, um corticoide inalatório e um broncodilatador de ação rápida e prolongada — de modo que o mesmo medicamento usado para aliviar o sintoma também trate a inflamação. Essa é uma opção interessante pois facilita o tratamento, e eu costumo utilizar frequentemente na prática. Qual esquema usar, em que dose e com que frequência é decisão do médico, caso a caso.
Se você tem asma e usa apenas a bombinha de alívio (como o salbutamol), esse é um bom assunto para levar à próxima consulta. Não interrompa nem troque nada por conta própria.
A técnica do inalador importa tanto quanto o remédio
Um medicamento inalatório usado com técnica incorreta chega em pouca quantidade ao pulmão, e o resultado fica pior que o esperado — o que às vezes é interpretado como “o remédio não funciona”. Vale pedir ao médico ou ao farmacêutico que observe você usando o dispositivo, e repetir essa checagem periodicamente. Se quiser revisar o passo a passo, veja o artigo sobre como usar corretamente o inalador dosimetrado.
Plano de ação escrito
É um documento curto, feito na consulta, em que ficam registrados quais medicamentos usar no dia a dia, o que fazer quando os sintomas pioram e em quais situações deve procurar atendimento. Ter esse plano por escrito faz parte do cuidado recomendado pelas diretrizes brasileiras e internacionais.
O que costuma desencadear as crises?
Os estímulos variam de pessoa para pessoa, e reconhecer os seus é parte do tratamento. Os mais comuns:
- Poeira doméstica e ácaros
- Mofo e umidade
- Pelos de animais
- Fumaça de cigarro, inclusive a de terceiros
- Gripes e resfriados
- Ar frio e mudanças bruscas de tempo
- Cheiros fortes, como produtos de limpeza e perfumes
Exercício físico também pode desencadear sintomas — mas isso não é motivo para deixar de se exercitar, já que no longo prazo a atividade física pode melhorar a inflamação dos brônquios e ajudar o tratamento. Com a asma bem controlada, a maioria das pessoas pratica atividade física normalmente, e o ajuste do tratamento para essa situação é discutido na consulta.
Quando procurar avaliação médica
Você deve ter acompanhamento médico regular para o controle da asma. Mas vale marcar uma consulta antes quando houver:
- Chiado, tosse ou falta de ar que se repetem sem explicação clara
- Sintomas que acordam você à noite
- Necessidade de usar a bombinha de alívio mais de duas vezes por semana
- Diagnóstico de asma, mas sem acompanhamento nem exame recente
- Uso apenas de medicamento de alívio, sem anti-inflamatório inalatório
Situação diferente é a crise que não melhora com o medicamento de resgate, ou que piora depois dele: essa é uma conduta prioritária e pede atendimento no mesmo dia, em pronto atendimento.
Perguntas frequentes
Asma tem cura?
A asma é uma doença crônica e, na maior parte dos casos, não se fala em cura, e sim em controle. Com o tratamento adequado, muitas pessoas passam longos períodos sem sintomas e sem limitação nas atividades. Em algumas crianças, os sintomas diminuem ou desaparecem com o crescimento, embora possam retornar na vida adulta.
A bombinha vicia ou faz mal ao coração?
Os medicamentos inalatórios usados na asma não causam dependência química. A sensação de “precisar cada vez mais da bombinha” costuma significar que a doença está mal controlada, e é justamente o sinal de que o tratamento precisa ser revisto. Tremor e aceleração dos batimentos podem aparecer logo após o uso do medicamento de alívio; são efeitos passageiros e devem ser relatados na consulta.
Corticoide inalatório é a mesma coisa que corticoide em comprimido?
Não. O corticoide inalatório age principalmente nos brônquios e é usado em doses muito menores do que as do comprimido, o que resulta em um perfil de efeitos bem diferente. Enxaguar a boca após o uso ajuda a reduzir efeitos locais, como rouquidão e candidíase.
Quem tem asma pode engravidar?
Sim, e manter a asma controlada durante a gestação é parte importante do cuidado com a mãe e com o bebê. As decisões sobre quais medicamentos manter, ajustar ou suspender na gravidez são individuais e devem ser tomadas junto com o médico — não por conta própria.
Referências
- Global Initiative for Asthma. Summary Guide for Asthma Management and Prevention. GINA, 2026. ginasthma.org (PDF)
- Pizzichini MMM, Carvalho-Pinto RM, Cançado JED, et al. Recomendações para o manejo da asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — 2020. Jornal Brasileiro de Pneumologia, 2020;46(1):e20190307. doi.org/10.1590/1806-3713/e20190307
- Cançado JED, Penha M, Gupta S, et al. Respira project: Humanistic and economic burden of asthma in Brazil. The Journal of Asthma, 2018;56(3):244-251. doi.org/10.1080/02770903.2018.1445267
- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Espaço Saúde Respiratória — Asma. SBPT. sbpt.org.br
Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação individual.




